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Archive for 30/05/2011

PAI DE ALUGUEL!

(Google Imagens)

Sim, essa é a nova moda na Rússia: alugar um pai. Depois dos maridos de aluguel, que no Brasil também são requisitados para pequenos reparos domésticos e funções como pregar um quadro na parede, as mulheres russas decidiram que poderiam usar um homem postiço para resolver a ausência da figura paterna.

A notícia saiu hoje na Gazeta Russa, publicada aqui pela Folha de S. Paulo. A preferência, segundo a reportagem, é por ex-soldados. A ideia é a seguinte: esses homens são pagos – e bem pagos – para um serviço de babá especializado, que pode incluir até mesmo fingir que são de fato os pais biológicos. Eles fazem tarefas básicas nos cuidados infantis: levar para a escola, preparar um almoço, brincar no parque.

Com isso, essas mães pretendem que as crianças tenham um referencial masculino, mesmo que por um curto período de tempo. Em um dos casos citados, a mãe disse ao filho que seu pai era espião e morava em Cuba, por isso nunca aparecia (!!!). Mas, notando a tristeza e rebeldia da criança, ela decidiu contratar os serviços de um pai de aluguel, que ficou por 4 meses ao lado do menino e, depois, quando o dinheiro acabou, voltou a “servir a pátria”. Não sei qual é o próximo passo do plano. Acho que ela provavelmente vai “matar” o pai – um desfecho bem freudiano, diga-se de passagem.

Cinismo à parte, esse recurso de alugar um pai tem um grande fundo psicológico. Para mim, é um grande e escancarado reflexo do que a psicanalista francesa Elisabeth Roudinesco diagnosticou como a “família em desordem”, e por isso chamou minha atenção. Esse, aliás, é o título de um de seus livros, que trata justamente sobre a perda da figura de líder da família pelos homens. O patriarcado, na visão dela, vem sendo substituído por inúmeras composições novas, como lares monoparentais e casais gays.

Nesse sentido, o aluguel me parece uma tentativa desesperada de algumas mulheres que, por uma ou outra circunstância, acabaram criando seus filhos sozinhas e, em um determinado momento, se viram precisando de uma figura de “autoridade” à moda antiga. Não estou aqui defendendo a ausência de pais, de forma alguma. Mas, ao ler essa notícia, penso que se trata de um retrato de nossos tempos: a mãe está mais empoderada, mas a família tal como a conhecemos, está despedaçando. E isso é uma questão que deveria inquietar todas as mulheres. É esse o caminho? O que vai substituir o formato até então em vigor? E indo além: é possível pensar em uma forma que prime pela eqüidade nas tarefas? Precisamos, afinal de um padrão?

Fica a reflexão de Roudinesco: “Se o pai não é mais o pai, se as mulheres dominam inteiramente a procriação e se os homossexuais têm o poder de assumir um lugar no processo da filiação, se a liberdade sexual é ao mesmo tempo ilimitada e codificada, transgressiva e normalizada, pode-se dizer por isso que a existência da família está ameaçada? Estaremos assistindo ao nascimento de uma onipotência do ‘materno’ que viria definitivamente aniquilar o antigo poder do masculino e do ‘paterno’ em benefício de uma sociedade comunitarista ameaçada por dois grandes espectros: o culto de si próprio e a clonagem?”
Por Maíra Kubic Mano, Doutorando em Ciências Sociais pela Unicamp.

Postado por Pr. Silvio Hirota
Em 30/05/2011
 
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